terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Back to Barcelona

Vicky Cristina Barcelona - Uma cidade preguiçosa, três mulheres que se parecem mais do que pensam e um pivô central que transforma a luxúria em algo natural e inocente.

Muitos dizem que Woody Allen não possui mais o fulgor nova-iorquino do seu começo de carreira, mas parece que o fulgor nova-iorquino não consegue sair dele, mesmo alguns oceanos distante de sua terra natal. Por outro lado, seu humor que sempre se achegou a lados europeus, parece encontrar terreno seguro na simpática Espanha cultural.

O filme, que durante todo o tempo é contextualizado por um narrador em off, começa com uma breve apresentação de duas amigas, Vicky e Cristina, chegando à cidade de Barcelona para uma breve temporada de férias. No começo, é visível que o objetivo é ressaltar uma espécie de maniqueísmo entre duas pessoas que carregam, cada uma, um conceito diferente de bem e mal.

Vicky, interpretada pela excelente Rebecca Hall, é o modelo de pessoa sensata, fiel, equilibrada e ligada a valores tradicionais. Cristina, por outro lado, é o exato oposto disso. Ao longo do filme, temos a constante sensação de que Vicky inveja Cristina e que Cristina também inveja Cristina. Explicando melhor, Cristina inveja a sua própria imagem que ela faz questão de construir, mas que nem sempre consegue manter.

Observando as características principais de Cristina, é muito fácil entender o motivo de Scarlett Johansson ter sido escalada para o papel. Além de ser a atual queridinha de Woody Allen, posto anteriormente ocupado por Diane Keaton e Mia Farrow, Scarlett possui uma sensualidade e inocência lânguida que parece conduzir todas as suas personagens. Sendo um ponto positivo ou uma limitação, a personagem parece ter sido feita a tais moldes e não poderia ser interpretada de forma melhor, ou mais coerente.

Durante a viagem, as duas jovens caem nos encantos de um homem que é a própria representação da cidade de Barcelona (ou pelo menos da Barcelona de cartão postal, que é a retratada por Woody Allen). Javier Bardem interpreta Juan Antonio, um artista sedutor que consegue abocanhar não uma, mas as duas jovens de comportamento tão dicotômico. Através de Juan Antonio, uma nova personagem entra em cena para perturbar tudo que estava sendo formulado na cabeça do espectador mais desavisado. María Elena, personagem da estonteante Penelope Cruz, praticamente rouba todas as cenas das quais participa.

María Elena é insana e sexy. Consegue seduzir não apenas seu antigo noivo com o qual vivera um dos maiores exemplos de amor e ódio da história do cinema, mas também Cristina, além dos expectadores perplexos com a bela loucura da personagem interpretada por Penelope Cruz. Penelope consegue ser tão competente que Scarlett se torna insossa perto dela, fazendo até mesmo aqueles que antes se simpatizavam com a loira, a acharem enfadonha e sem graça ao desenrolar da trama.

Vicky some de cena enquanto o triângulo amoroso vivido entre Cristina, Maria Elena e Juan Antônio se desenvolve, o que nos faz questionar o real sentido do título do filme. No final do filme, porém, Vicky retorna para desabafar o espectador que está confuso com tudo aquilo e perplexo com a situação utópica que os outros personagens vivem (a plenitude do sexo, da arte e do dolce far niente). Realmente ela parece ser a única representante do pensamento ocidental ligado às questões de trabalho, responsabilidade e comprometimento. Em uma discussão onde ela tenta entender o mundinho onde a tríade vive, ela leva um tiro de uma ciumenta Maria Elena e decide, finalmente, que ela não é capaz de compreender e muito menos de fazer parte daquilo tudo.

No final das contas, o filme roda em várias situações e parece rumar os personagens ao grande desfecho que nada mais é do que a união das pontas de partida e chegada. A comédia improvável, inusitada e apaixonante de Woody Allen leva o espectador a uma bela viagem, visitando Gaudí e presenciando pitadas insólitas e quase subliminares de Pablo Neruda e Jackson Pollock. Apesar da arte em evidência, a condução dos fatos nos traz de volta à realidade. Como se estivéssemos realmente saindo da incrível Barcelona e nos reconhecendo em nossa atualidade tão pouco surpreendente e interessante.

Um comentário:

VestigiosTeus disse...

wow, vi o filme, mas da forma como o descreveste fez-me ver ponto que nao notei qdo vi o filme. bela narracao do filme. bjx