terça-feira, 6 de setembro de 2011

Cabelos e culhões

Me olhei no espelho e peguei a tesoura. Aproximei-a de uma mecha previamente separada e, antes de executar o golpe final, deixei-a cair com estrépito no mármore do banheiro. Seria mármore? Não faço idéia. Me olhei no espelho e deixei a tesoura. Deixei-a por ali mesmo, onde caiu. Não tenho mais cabelo para cortar. Não posso me dar ao luxo de sair por aí cortando ao bel-prazer. Ou ao bel-sofrimento, como na verdade é. Nunca tive os cabelos tão curtos em toda a minha vida. Isso me desesperou tanto, tanto. Não posso me dar ao luxo de sofrer mais. Sofrimento que está inteiro na minha cabeça, inteiro, inteiro. Mas não posso mais. Não tenho mais cabelo para cortar. Não posso mais. Então eu choro. Choro de escorrer. Choro de derreter o delineador que deixou meu olho mais verde nessa noite. Não tenho mais cabelo para cortar. Para onde vai toda a aflição? Toda a agonia? Todo o desespero que causei a mim mesma por uma junção de fatos que já nem sei mais quais são. Os fios de cabelo repicados na pia e no chão do banheiro eram fossas eliminadoras de todo pensamento podre que ousava aparecer na minha cabeça. Ali eles surgiam e, dali, logo iam embora. Diretamente pelo fio condutor. Conduzindo-os diretamente para o ralo. Mandava todos para a puta que pariu. Junto com meu cabelo. Mas não tenho mais cabelo para cortar. 

Um comentário:

Marielle Zum Bach disse...

bom, só para ser honesta comigo mesma e com os leitores (leitores?):
no final, eu acabei cortando o cabelo. ainda mais.