sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Rocky Balboa fumante


_ Por que você fuma?

Perguntei para ele enquanto o observava apoiar aquele papel cilíndrico toscamente entre os lábios e riscava a caixinha de fósforos. Ele abriu os olhos e me olhou antes de fechar os olhos novamente para acender o cigarro.

_ Porque eu gosto.

A resposta não era satisfatória. Ele acendeu o cigarro, tragava pela primeira vez e soltava a fumacinha pelo nariz, de forma quase independente. O observei por alguns instantes e ele entendeu que deveria prosseguir com o raciocínio.

_ Me acostumei. Acho que o ar como ele é, sem as interferências da nicotina, não me satisfaz mais. Mudar de ar algumas vezes durante o dia pode ser algo interessante. Encher meu pulmão com uma substância estranha talvez faça meu organismo se preparar para qualquer interferência externa. Essa preparação me faz sentir como, sei lá, James Dean ou Rocky Balboa.

_ Rocky Balboa?

_ É.

_ Não fez sentido.

_ Eu sei, mas eu gosto dele.

Dei um risinho debochado e ergui as sobrancelhas, ainda esperando uma resposta satisfatória.

_ Eu não sei explicar. Senti meu rosto formigar e meu coração bater um pouco mais forte da primeira vez que dei um trago. Desde então, fumar me faz perceber meu corpo como corpo. Corpo que protesta ao receber um elemento satisfatório. É meio que um paradoxo, sabe?

_ Acho que sei.

Ele deu mais um trago e fixou seu olhar na ponta cinzenta e na luzinha alaranjada, que permanecia tímida e fixa, a luzinha alaranjada que possibilitava aquele momento.

_ Tipo... Não tem muito segredo. Tem coisas muito piores dentro de mim do que essas substâncias. Nicotina, alcatrão, e todas essas cosias que matam ratos e broxam um homem despreparado.

_ E você é um homem preparado, então?

_ Nem sempre. Mas sempre terei uma desculpa caso não esteja, no momento. É como usar o conhaque simplesmente para fazer qualquer coisa e depois ter o prazer de poder colocar a culpa naquilo, sabe?

_ Acho que sei.

Ele deu mais um trago e bateu as cinzas por trás da cadeira, apoiando em seguida os cotovelos na mesa para tentar explicar melhor, penso eu, aquilo que nem ele sabia exatamente do que estava falando.

_ Pessoas falam que o cigarro é um tempo que você dá a si mesmo para poder pensar em algo sem que as pessoas questionem o motivo de você estar tão concentrado em si mesmo. “Tô fumando”. Explico. E daí fica tudo bem. Isso é mais ou menos verdade.

_ Mas por que você fuma?

_ Fumo quanto tô satisfeito. Quando tô mal. Fumo antes de encorajar uma mulher a ser levada para a cama e fumo na cama depois que obtive o êxito. Se não obtive o êxito, também fumo. Fumo quando bebo, porque é assim. Fumo quando não bebo também porque nem sempre posso beber, sabe?

_ Acho que sei.

E ele continuou fumando. E eu o observava por trás daquela fumaça na qual ele, propositalmente ou não, se escondia. “Tudo bem”, pensei. Já estou mesmo acostumada com o gosto.

Um comentário:

tarsila disse...

Muito interessante! Gostei...
Esse texto me lembra a Carol Ornellas! rs