sexta-feira, 10 de junho de 2011

Fitzgerald (terceira parte)


Fitzgerald (terceira parte)

Ele havia pensado nela.
As noites com sua esposa já não eram satisfatórias, mas dessa vez foi. Ele havia pensado nela.
Esse espasmo de nostalgia veio poucos dias depois de a ver no restaurante. Podia não ser ela, mas ele tinha certeza de que sim, e isso era suficiente.
Mas ele não pensara na mulher do restaurante. Pensara na jovem prostituta de tempos atrás, que provavelmente nem existe mais, epistemologicamente falando.
Aquela do olhar Scarlett O’Hara. Aquela indecisa entre Billie Holliday e Etta James. Ou seria Fitzgerald? Não importa.
Ela balbuciava desafinada a letra de Love for Sale. Essa era a música, com certeza.
O perfume do pinheirinho de menta, o perfume genérico forte e provavelmente fora de validade em gotas nos pulsos e atrás dos lóbulos das orelhas dela. O cigarro barato que deixou sinais no estofado até bem depois daquela noite. E principalmente: aquele olhar, que exalava desprezo e inocência em um paradoxo profano. Ela tinha aquele olhar.
E bastou que ele a imaginasse ali, em um ato que foi pago mas ficou só na incredulidade, que a noite foi satisfatória. Como há muito tempo não era com a sua esposa.
As notas amassadas que ele jogou para ela antes de a ter expulsado do carro pagaram o eterno incômodo do “não-ter-sido” e agora ele havia percebido, na epifania de um gozo, que fora melhor não tê-la fodido naquela época.

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