quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Fitzgerald (segunda parte)

Sim. Era ela.
Aquela da noite fatídica de sei-lá-quanto de novembro de uns cinco anos atrás.
Como poderia esquecer aqueles olhos? Talvez não os olhos, mas ela tinha aquele olhar Scarlett O'Hara. Ela tinha aquele olhar.
Sentada há umas três mesas de distância, com um homem possivelmente marido e um garoto possivelmente filho.
Quando ela deixara avenida? Quantos a mandaram descer do carro antes de chegar ao motel? Até que ponto o fato de ele não tê-la comido possa ter influenciado naquilo que ela se tornou?
Ele desejou que a caixa de som do bar entoasse Miles Davis. Ele ainda não perdera o gosto por situações idealizadas e queria, em tão íntimo, transformar um simples jantar em um noir francês excitante e sangrento.
Pensou em se identificar. Mas identificar quem? Quantos já não abriram o vidro e perguntaram se ela estaria livre aquela noite?
Ele estava com a esposa, ela com marido e filho. Como seria possível estabelecer qualquer contato de segundo grau sem envolver no mínimo quatro pessoas em uma situação constrangedora?
Ele sentiu ciúmes. Do marido dela, do garotinho...
Ciúmes pelo que? Não fazia idéia. Não fazia sentido.
Ela estava longe de ser a mulher mais bonita que já vira, mas aquele olhar Scarlett O'Hara levaria à lona qualquer homem em qualquer lugar no mundo. E disso ele tinha tanta certeza que apostaria o seu carro do ano e sua casa no litoral.
Ergueu sutilmente a cabeça para adquirir uma visão panorâmica decidido a contar quantos naquele ambiente estariam encarando-a estarrecidos. Mas nenhum deles parecia ter notado. Como pode? Haveria de ter algum rapaz perdido naquelas pupilas de buraco-negro!

_Amor?
_Han... Oi?
_Está procurando alguma coisa?

Ele se ajeitou na cadeira. Virou o corpo para a esposa que não evidenciara sua presença até então e deu-lhe um beijo no rosto.

_Não é nada, meu bem.

Será que o homem ao lado dela sabia o que ela era? Não poderia ser um caso patético análogo ao do filme da Julia Roberts...
Será que ela ainda ouve o jazz e traga o cigarro com a mesma intensidade contida de antes?
Será que ela ainda se lembra de toda a letra de Love for Sale ?
Esteve com ela por quinze minutos e quase não trocaram vocábulos. As respostas dela, sempre ríspidas e cheias daquele humor debochado, transbordando escárnio e, quase paradoxalmente, aquela irritante indiferença.

_Amor!
_Oi!
_O garçon já trouxe a conta...

Ele tirou a carteira do bolso e deixou o dinheiro em cima da mesa. Se levantou e ajudou a esposa a se levantar. Passou a mão pelos seus ombros e se dirigiu à saída do restaurante. Sem dirigir sequer um último olhar à bela dona, entrou no carro e foi embora.

Em Vicky Cristina Barcelona, María Elena - personagem de Penelope Cruz, conclui tudo:
"Only unfulfilled love can be romantic"

Um comentário:

felipe lacerda disse...

me lembre de te cobrar esse filme. vamos assisti-lo juntos. Vicky Barcelona.
Escreva mais textos assim. Esse ficou muito bom. Bom mesmo.