quarta-feira, 7 de outubro de 2009

tudo. até esse segundo.



a antiga devoradora de livros, ou a antiga inconstante criadora de clubes e mais clubes na escola.
a única que mantinha contato com o universo adulto, quando bem jovem. e tendo uma certeza tão equivocada de que conversava de igual para igual. não era de igual para igual, eles simplesmente achavam encantadora aquela criança
que julgava a política e as ações sociais, assuntos plausíveis de preocupação.
ela queria impressionar. e essa foi a forma que encontrou para se destacar sem levar martelada.
desenvolveu cedo a habilidade de dissertar sobre qualquer assunto, ainda que não tenha conhecimento algum sobre ele.
ela era a boa. a jovenzinha. tanto que se saía bem na escola mais por impressionar os professores com suas palavras bonitas e seu linguajar prolixo do
que com suas notas propriamente ditas. as notas não importavam. ela era a melhor.
e mais impressionante do que todos pensarem, era o fato de ela saber que todos assim pensavam. era uma sensação linda.
depois ela foi percebendo que precisaria impressionar algo além de pais e mestres para ser admirada pelos outros ao seu redor.
inicia-se a caça pelo topo da atenção do sexo oposto.
não foi algo planejado, não é algo que se conquista com palavras difíceis ou conhecimentos sobre moedas e capitais. o maior desafio que ela já presenciara.
sofrera com isso, não era a garota mais bonita da escola e nunca fizera questão de sequer passar alguma tinta na cara.
era amiga dos garotos. ela gostava de desenhos japoneses e esportes, e toda essa baboseira que dizem específica masculina.
eles eram três, depois mais. mas no básico, era ela e outros dois.
saíam juntos, se sentavam juntos, chegaram inclusive a ir ao cinema juntos. ela era um "deles". e, passado um certo tempo, um deles passou a causar tantos ciúmes
com comentários sobre outra garota que ela decidiu que gostava dele.
desde então, ela percebeu que sim, era possível escolher de quem gostar, até porque alguém tão maleável quanto ela poderia muito bem se adaptar ao modo e aos
gostos daqueles os quais queria impressionar. decidiu e gostou.
ele nunca chegou a saber, a sequer desconfiar. diziam que era mútuo mas nunca se disse nada sobre aquilo.
essas questões de curiosidade com o sexo oposto de forma mais sexual começou a afastá-los. e eles se afastaram.
passado algum tempo, ela decidiu que queria sim pertencer ao grupo que sempre repugnava.
encontrou nas adoradoras de cor-de-rosa um mundo novo, encantador.
e uma das melhores amigas, uma das pessoas mais puras que chegou a conhecer em toda a vida.
ela permaneceu durante um tempo. suas notas caíram, ela se tornou um pouco mais popular entre os garotos e assim foi durante um tempo.
até que ela se cansou desse mundinho de blush e abandonou de vez.
nunca mais foi a mesma.
encontrou um namoradinho. foi o primeiro. e ele a dominou de forma avassaladora.
não tinha mais os adultos a bajulando. afinal, já estava bem grandinha para receber os sabe-se lá quantos títulos de criança prodígio.
não tinha mais os amigos garotos, já que os perdera quando se perdeu a inocência.
não tinha mais as amigas cor-de-rosa, já que abandonara aquele mundo com passagem só de ida.
ela só tinha a ele. de forma escassa, de forma feiosa, mas ela o tinha. de alguma forma.
ele foi a razão da vida dela de forma que enfrentou vários problemas sociais nesse período,
mas não tinha importância alguma, já que o maior sofrimento era o desprezo dele.
ela precisava dele. ainda que ele a desprezasse.
não se sabe exatamente o que causou a ruptura, mas após um longo período, ela abriu os olhos.
os olhos arderam, ela nunca havia enxergado antes.
deixara a matrix. fora apresentada ao mundo! e no início, um mundo novo, assustador.
conheceu a amizade e aprendeu o que ela realmente significava na vida de alguém.
passaram-se boas e ruins e ela viveu o auge de sua independência em nível de personalidade.
não saberia determinar suas influências e nem tinha necessidade de determinar alguma, de fato.
se construiu. de uma forma menos lapidada por si própria ou pelos outros (diretamente e reconhecidamente).
estava ali, bruta. sujeita apenas às ações naturais, aos cursos inevitáveis e às influências que ocorreriam da forma mais suave e indolor possível.
foi quando conheceu aquele que seria supostamente o homem de sua vida.
ela, que moldada de forma x, se viu presa em um universo y em função daquele homem.
ele não a dominava, ela a influenciava. ele trazia um preenchimento na auto-estima dela de forma que adulto algum, amigo algum ou outro homem algum conseguia fazer.
e ela viveu situações diversas nesse relacionamento. julgou-o eterno.
e assim foi, enquanto durou. cliché? sim. mas tudo sempre foi um filme.
o relacionamento terminou, e com isso. uma vida completamente nova e estranha foi apresentada a ela. ela gostou do que viu, e não teve medo.
não queria mais saber de nada além de auto-satisfação. a curto, médio e longo prazo.
tudo era um excitante Woody Allen na vida dela, então.
com mais influências do que nunca, mais indecisões do que nunca, menos pilares do que nunca, mas incertezas do que nunca, mais falsidade do que nunca, mais frieza do que nunca,
mais sentimentalismo exacerbado do que nunca e, como perceptível, mais paradoxo do que nunca.
porém, com menos arrependimento do que nunca e isso era suficiente para tornar o exato
segundo em que estava, o melhor segundo de sua vida.

Um comentário:

disse...

e ela é minha amiga.