sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Caso com o caos

Desordem. Tudo tende ao caos, que chega pela porta da frente trajando beca social.
O caos aparece quando você chama, e você chama porque ele consegue ser melhor que a monotonia.
O caos não se compara, escancara. Vem pra mexer no que tá quieto. Estabelece conexões absurdas com outros momentos no tempo e espaço. Faz você perceber o erro, e é aí que você erra.
O caos não diferencia possibilidade e necessidade. O que é necessário se torna banal, e o que é trivial se torna pilar de sustentação de uma vida inteira.
O caos não deprime. O caos definha. 
O caos não denigre. O caos regride.
O caos não reprime. O caos revida.
O caos desconhece padrões de estabilidade como elementos vitais. 
O caos abomina e ataca as certezas e incertezas mais certas e incertas.
Ele é necessário, porém nunca desejado. Imponente, astuto. Briga com os paradigmas como lobo do deserto briga com raposa amuada. Uiva, fode e come a raposa.
O caos sempre aparece porque está vivo. Vivo como ele próprio.
O caos. Ele seduz a sereia e o cavalo, os arrasta para profundezas de prazeres inigualáveis.
O caos salta aos olhos, invisível. O caos salta dos olhos em forma de líquido.
O caos come a raposa e vomita pedra. A pedra do caminho de Drummond. A pedra é a filha da bile do caos. Do caos. 

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Leve pousa

Meus desejos são como amêndoas macias: incomodam nas bocas daqueles acostumados à pungência tradicional dos alternativos em alta.
Por fim, precipito cada detalhe dos sonhos asquerosos e me jogo do topo ao topo. Inverto o precipício e caio no princípio da bilateralidade.
Volto a caminhar por ruas de lamparinas, flanando até ouvir o eco nostálgico do seu canto de marinheiro. Marinheiro que vem e que vai.
Meu feitio é sereno, mas meu abrigo é aflito, feito galinha d'angola. Empresto meu sorriso a estranhos na rua, escondendo meu desprezo. Com você, o oposto. Encarno o blasé enquanto meu coração assiste Os Três Patetas.
Minha amêndoa é macia demais para a sua boca. Onde está a rigidez da minha amêndoa? Onde está?
Ó, marinheiro, leve contigo o fruto que se fez podre de tão maduro, dentro de mim.
Leve tudo, e me deixe leve.
Leve tudo, mas também me leve.
Leve tudo, me leve, me eleve.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Você me inspira a acordar toques de veludo espinhento, escondidos dentro dos meus desejos.
Você se machuca enquanto eu observo cheia de sadismo e uivo por você. Há algo de errado nisso e eu sei. Mas não posso conter algo tão meu. Tão meu quanto seu.
E a você tudo isso pertence, da mesma forma como uma carta pertence ao seu leitor.
Mas a quem pertence a fruta mordida? Ao dente ou à cárie?

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Praga

Praga que não pega, não peca e não prega.
Praga que passa em pratos podres, passados em pedra e pranto.
Praga que empaca, que não emplaca a estaca na porta apagada.
Praga que é emplasto de infarto forjado.
Praga emprestada de poeta desvairado, que padece em prontidão perante palavras de um prisioneiro qualquer.
Praga de pagador de promessa, que deve palácios e entrega palhetas.
Praga improvável, que faz palpitar pálpebras paranoicas de trapezistas de circo.
Praga que não roga, que não prova e nem aprova.
Praga que perambula nos pântanos do meu coração.
Praga, paixão.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Na verdade não existe nada

Você não me quer, eu sei.
Mas sei como se sabe que o sol é quente. Um sabido certo, mas intuitivo.
Sei como sei, mas quero colocar a mão antes de ter certeza da queimadura.
Sei que meu nome não percorre momentos no seu dia tanto quanto o seu nome invade o meu quotidiano e parece amaldiçoar coisas simples que faço. Coisas que não sei se me lembram você, simplesmente, ou se faço apenas com a intenção de te trazer à minha tona.
Qualquer sinal da sua presença já acalma meus palpites sedentos de contato. Ainda que sejam sinais visíveis apenas para os meus olhos de serpente amarela.
Meus olhos enxergam mais cores que os seus e deve ser por isso que tudo em mim já está criado. Colorido.
Tudo em mim já existe, e em você não existe nada.
E não é o nada intratextual do além do nada ou do tudo a mais que o tudo.
É só o nada. E mais nada.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Noite densa que termina

A noite densa, tensa, intensa, que nunca mais se calou perante os olhos furiosos daquele que a observara sedento de carne e faminto de pus. Faminto de pulso. Faminto de impulso.
Expulso de Valhala, temia nunca mais regressar e passou a contar mares e mastros até chegar onde o fruto proibido não é mais gostoso por não ser pecado. Não era pecado. Mas o resto era.
O resto era, o resto que erra, o resto que teme a certeza da razão e se esconde em colinas de gramas macias de casas que abrigam gente pequenina.
Eles não vão mais voltar, a lua observa. Observa e conserva seu rosto voltado para a conversa dos homens bons de cor e ação.
A noite densa termina e ninguém se lembra de esquecer a penumbra do chá, que já está frio.
Ninguém bebeu, e os lábios trêmulos buscavam erva mais verde e mais líquido e mais sangue e mais colinas de gramas macias de casas que abrigam gente pequenina na noite densa que termina.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Mais fundo

Eu queria olhar nos seus olhos e contar reflexos, mais fundo, mais fundo.

Eu queria te encontrar um dia desses e assistir você ensaiar um discurso qualquer para uma pessoa que eu desejaria que fosse eu. Mais fundo, mais fundo.

Eu queria levar você para um outro lugar, para dentro de mim. Mais fundo, mais fundo.

Eu queria te dizer como eu realmente te vejo e contar coisas que você nem sonha imaginar. Mais fundo, mais fundo.

Eu queria flanar com você por caminhos que só você conhece, deixando você me mostrar o que há de bom nesse mundo insosso. Mais fundo, mais fundo.

Eu queria contar copos e sedas enquanto um filme qualquer passeia pela tela e nos leva para mais fundo, mais fundo.

Eu queria brincar dedos pelo seu pescoço e sentir sua pele protestar em silêncio. Mais fundo, mais fundo.

Eu queria mergulhar em você. Mais fundo, mais fundo.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Back to Barcelona

Vicky Cristina Barcelona - Uma cidade preguiçosa, três mulheres que se parecem mais do que pensam e um pivô central que transforma a luxúria em algo natural e inocente.

Muitos dizem que Woody Allen não possui mais o fulgor nova-iorquino do seu começo de carreira, mas parece que o fulgor nova-iorquino não consegue sair dele, mesmo alguns oceanos distante de sua terra natal. Por outro lado, seu humor que sempre se achegou a lados europeus, parece encontrar terreno seguro na simpática Espanha cultural.

O filme, que durante todo o tempo é contextualizado por um narrador em off, começa com uma breve apresentação de duas amigas, Vicky e Cristina, chegando à cidade de Barcelona para uma breve temporada de férias. No começo, é visível que o objetivo é ressaltar uma espécie de maniqueísmo entre duas pessoas que carregam, cada uma, um conceito diferente de bem e mal.

Vicky, interpretada pela excelente Rebecca Hall, é o modelo de pessoa sensata, fiel, equilibrada e ligada a valores tradicionais. Cristina, por outro lado, é o exato oposto disso. Ao longo do filme, temos a constante sensação de que Vicky inveja Cristina e que Cristina também inveja Cristina. Explicando melhor, Cristina inveja a sua própria imagem que ela faz questão de construir, mas que nem sempre consegue manter.

Observando as características principais de Cristina, é muito fácil entender o motivo de Scarlett Johansson ter sido escalada para o papel. Além de ser a atual queridinha de Woody Allen, posto anteriormente ocupado por Diane Keaton e Mia Farrow, Scarlett possui uma sensualidade e inocência lânguida que parece conduzir todas as suas personagens. Sendo um ponto positivo ou uma limitação, a personagem parece ter sido feita a tais moldes e não poderia ser interpretada de forma melhor, ou mais coerente.

Durante a viagem, as duas jovens caem nos encantos de um homem que é a própria representação da cidade de Barcelona (ou pelo menos da Barcelona de cartão postal, que é a retratada por Woody Allen). Javier Bardem interpreta Juan Antonio, um artista sedutor que consegue abocanhar não uma, mas as duas jovens de comportamento tão dicotômico. Através de Juan Antonio, uma nova personagem entra em cena para perturbar tudo que estava sendo formulado na cabeça do espectador mais desavisado. María Elena, personagem da estonteante Penelope Cruz, praticamente rouba todas as cenas das quais participa.

María Elena é insana e sexy. Consegue seduzir não apenas seu antigo noivo com o qual vivera um dos maiores exemplos de amor e ódio da história do cinema, mas também Cristina, além dos expectadores perplexos com a bela loucura da personagem interpretada por Penelope Cruz. Penelope consegue ser tão competente que Scarlett se torna insossa perto dela, fazendo até mesmo aqueles que antes se simpatizavam com a loira, a acharem enfadonha e sem graça ao desenrolar da trama.

Vicky some de cena enquanto o triângulo amoroso vivido entre Cristina, Maria Elena e Juan Antônio se desenvolve, o que nos faz questionar o real sentido do título do filme. No final do filme, porém, Vicky retorna para desabafar o espectador que está confuso com tudo aquilo e perplexo com a situação utópica que os outros personagens vivem (a plenitude do sexo, da arte e do dolce far niente). Realmente ela parece ser a única representante do pensamento ocidental ligado às questões de trabalho, responsabilidade e comprometimento. Em uma discussão onde ela tenta entender o mundinho onde a tríade vive, ela leva um tiro de uma ciumenta Maria Elena e decide, finalmente, que ela não é capaz de compreender e muito menos de fazer parte daquilo tudo.

No final das contas, o filme roda em várias situações e parece rumar os personagens ao grande desfecho que nada mais é do que a união das pontas de partida e chegada. A comédia improvável, inusitada e apaixonante de Woody Allen leva o espectador a uma bela viagem, visitando Gaudí e presenciando pitadas insólitas e quase subliminares de Pablo Neruda e Jackson Pollock. Apesar da arte em evidência, a condução dos fatos nos traz de volta à realidade. Como se estivéssemos realmente saindo da incrível Barcelona e nos reconhecendo em nossa atualidade tão pouco surpreendente e interessante.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Dissidentes

Pílulas e livros, enclausurados em propostas inaceitáveis.
Canetas amarelas colorem o cabelo dela e me chamo Envy desde então. 
Ela tem aquele olhar (Scarlett O'Hara), mas é meio psicótica. Não tem problema, eu a invejo mesmo assim.
Te observei de longe e percebi que o caminho era longo e tempestuoso, mas os Beatles já cantaram sobre isso, então não deve ser assim tão difícil.
Pedais de bicicleta não fazem som, mas me levam pro lado de lá, onde as caras são mais bonitas e posso escolher meu próximo amorzinho.
Sem primeiras chances, só passo de segunda ou de terceira. Sangue e mel e complexo de Estocolmo.
Me prenda e me espanque, assim eu não te deixarei.
Ela te deixará, mas eu não te deixarei.
Tem poeirinha nas minhas mãos e minha garganta é seca. Mas minhas entranhas são úmidas de pântano, de pânico.
Por favor, me mostre como chegar lá. Os outros podem passar, mas eu vou indo pelas beiradas, pela margem, pela favela.
Vale tudo para chegar até o seu vale. Cálice.
O shamisen sorri e diz: "hajimemashite". Eu apenas olho e sorrio com a ponta do nariz. Fungando,  farejando, caçando seu som.
Olha só, as cenouras estão tortas e o passarinho não consegue cantar. Eu gosto de parques de diversão.
Eu não estou louca, estou apenas de boa. Toque sua guitarra e vamos ficar em silêncio.
Você sabe que eu prefiro o baixo, mas estou alta demais.
Sei que você tá sozinho, mas talvez você não queira estar depois de ver aquele rabisco na sua agenda.
A maçã só tem lixo dentro dela, mas continua oca e podre e transparente e linda.
Eu não queria ir embora, mas tenho que trabalhar e você tem que começar a me amar logo. Então eu vou embora.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Nós éramos dois atores

Às vezes, bons. Às vezes, ruins. Nós éramos dois atores não influenciados pelas críticas.
Nós nos enrolávamos nas coxias, que atuavam como lençóis. Nós nos perdíamos no roteiro, que atuava como diálogo. Interpretávamos o mesmo texto, mas estávamos em palcos diferentes.
Nós éramos dois atores. Mal dirigidos, mal orientados. Tentamos improvisar, mas nossas falas não se completavam, nossos ritmos não se estabilizavam.
Éramos dois atores que tentavam conquistar a platéia que nada mais era que uma idealização de nós mesmos. Tentávamos nos conquistar, atuando cada vez mais efusivamente, energicamente. Mas estávamos atuando, somente. Infelizmente.
Cada fala parecia parte de um roteiro bem elaborado, onde tudo deveria se encaixar perfeitamente. Mas o que nós não sabíamos, é que éramos palhaços. E tudo não passava de um espetáculo barato.
Nós éramos dois atores. E a peça acabou.