terça-feira, 23 de julho de 2013

Leio escritos antigos de tempos que não sei quando. Penso no que escrever agora mas não há insatisfação suficiente.
Preciso do não para dizer sim, preciso do abismo para levantar vôo, preciso da pedra no feijão. 
Fogo. Fogo para forjar a espada, assim como o caos para forjar a escrita. Sem o caos, a escrita fica torta, frágil, crua.
Tenho medo de forçar o lápis e descobrir o errado onde não há. Transformar o calmo em fúria, questionar minha estabilidade e chegar ao ponto onde sempre chego: a auto-sabotagem. 
Não quero. Eu nunca quero.
Mas parece que não fico satisfeita quando minha insatisfação não é percebida a olhos cegos. Me torno exausta do pouco labor e preocupada com a falta de desordem. Amo de menos quando o amor me completa e choro as vitórias, triste e entediada pelo trono no qual me sentei. 
Conquistei o que queria, mas já não é mais o suficiente. Preciso cavalgar mais para descobrir novos vazios, novas necessidades, novos motivos para me sentir fraca, impotente e insegura. 
Já comecei? Espero que não. Espero de verdade conseguir adiar meu enfado ao máximo dessa vez.
Que a auto-sabotagem me fuja das ideias por um bom tempo e me permita o deleite da água pós-sede, da comida pós-fome e da felicidade pós-tanta-insegurança-e-desmazelo.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Silencio. No hay banda.

Silencio.

No hay banda.

Encaixa o fecho. Fecha a caixa. Enquadra a cena e sai fora.
Não sei se é astigmatismo ou surrealismo. Não sei.
A visão é turva e o coração grita. O pulso morre, a morte pulsa.
Tudo é vida, vívida e vivida permanentemente em sonhos grotescos de velhinhos que condenam.

Angústia.

Desespero.

No hay banda.

Todas as pessoas ao nosso redor são representações mal feitas de nossas próprias qualidades e defeitos.
Especialmente dos nossos defeitos. Não existe ninguém.
Não é essa a explicação, mas é essa a minha explicação. E eu começo a acreditar que isso é verdade.

No hay banda.

Não há nada. Não há plateia. Não há espetáculo. É tudo ilusão.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Homem de aço


Suspiro.
Chorar é muito pior quando o motivo é o choro de outra pessoa. Eu que sempre me peguei tão insensível, tão indiferente, tão calejada, me vejo ao chão ao perceber tudo aquilo que causei.
Eu que sempre, tão segura de minha própria segurança, arrastei todas as coisas como se uma barreira de aço pudesse me proteger do frio, do calor, da melancia e da melancolia.
Suspiro.
Mas minha barreira de aço não era o que eu imaginava. Minha barreira de aço era um homem de aço. E vi meu homem de aço perecer a uma criptonita que eu jamais presumi existir no mundo. E vi que a criptonita estava mais perto do que eu pensava. E a criptonita sou eu.
Suspiro. Duas vezes.
Como pode alguém que tanto me fez chorar durante noites de insanidade me quebrar inteira com apenas uma pergunta? Uma pergunta que se fez sincera. Tão sincera que nem parece verdade. Mas aquela era a maior de todas as verdades. E a verdade pulou de dentro de mim como um cachorro faminto em busca de osso e de carne. Eu estava em busca de osso e de carne.
Suspiro.
Joguei tudo fora. Roupas, objetos e o câncer. Mas sobrou aquele restinho de metástase para me lembrar para sempre do que aconteceu. E eu me lembrarei. Pela ferida e pela partida. Me lembrarei. E sofrerei eternamente a dor de saber que me tornei a criptonita do meu próprio homem de aço.
Suspiro. Várias vezes.
Me desculpe, homem de aço. Me desculpe, meu pai. Eu ainda sou feita de plástico.

domingo, 5 de agosto de 2012

Me encierran los muros de todas partes. Barcelona.

Barcelona.
Uma palavra que, para mim, tem um significado muito maior que uma determinada localização geográfica.
Barcelona.
Barcelona pode ser uma esquina, um gole, um trago, uma pessoa. É tudo aquilo que não é nada mas pode ser tudo dependendo do ponto de vista. E se depender do meu ponto de vista, o nada é sempre muito mais do que o tudo.
Barcelona.
É aquela sensação de saber que com certeza o que vai fazer é errado, mas saber que com certeza no final vai dar tudo certo. 
Barcelona.
É ir para um lugar que não se sabe exatamente onde, de uma forma que não se sabe exatamente como, com uma pessoa que não se sabe exatamente quem. É sentir paz e desordem ao mesmo tempo. Ou melhor, é não sentir paz em momento algum que não seja apenas aquele exato.
Barcelona.
Porque es tan fuerte que solo podré vivirte en la distancia y escribirte una canción. Te quiero Barcelona.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Penso, logo paro.

E do desejo se fez ato. Do ato se fez consciência. Da consciência se fez repulsa. E nada pulsa.
Se penso, o que é intenso se torna imenso demais para o interno suportar. Se penso, paro.

Pensar significa regredir. Resumir a um ponto atômico quase indivisível. Pensar é reduzir a necessidade ao ponto mais visceral. A essência sintetizada ao seu mero propósito. A necessidade se torna capricho, capricho e relaxo.

E então o ponto some. O ponto implode em epifanias dignas de espetáculos espetaculosos. 

O desejo que virou ato que virou consciência que virou repulsa e parou de pulsar parou também de existir em holofotes. Os holofotes, elefânticos, se curvam ao rastro de rato imundo. Se fez luzinha e apagou. Não existe mais nem em pensamento, porque pensei. Apenas porque pensei demais, o pensamento morreu. E sumiu. Assumiu.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Life is bigger than you

Seria mais fácil me afundar em bocas suaves de terrenos continentais.
Seria mais fácil beijar o néctar satírico dos faunos do meu próprio jardim.
Seria mais fácil quebrar a lâmpada com um estilingue velho de jovens avôs.
Seria mais fácil organizar todas as pílulas pela ordem alfabética do nome de suas cores.
Seria mais fácil desconsiderar qualquer tese refutada pela sua antítese que fez limpo o limbo do meu próprio desespero.
Seria mais fácil regurgitar a fumaça branca que tragá-la para dentro de mim. Ou trazê-lo para perto de mim.
Seria mais fácil não pintar as unhas de vermelho e apenas esperar que elas fiquem amarelas, apodreçam e caiam.
Seria mais fácil se eu fosse mais difícil. Se eu fosse mais difícil, ah, como tudo seria mais fácil.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Caso com o caos

Desordem. Tudo tende ao caos, que chega pela porta da frente trajando beca social.
O caos aparece quando você chama, e você chama porque ele consegue ser melhor que a monotonia.
O caos não se compara, escancara. Vem pra mexer no que tá quieto. Estabelece conexões absurdas com outros momentos no tempo e espaço. Faz você perceber o erro, e é aí que você erra.
O caos não diferencia possibilidade e necessidade. O que é necessário se torna banal, e o que é trivial se torna pilar de sustentação de uma vida inteira.
O caos não deprime. O caos definha. 
O caos não denigre. O caos regride.
O caos não reprime. O caos revida.
O caos desconhece padrões de estabilidade como elementos vitais. 
O caos abomina e ataca as certezas e incertezas mais certas e incertas.
Ele é necessário, porém nunca desejado. Imponente, astuto. Briga com os paradigmas como lobo do deserto briga com raposa amuada. Uiva, fode e come a raposa.
O caos sempre aparece porque está vivo. Vivo como ele próprio.
O caos. Ele seduz a sereia e o cavalo, os arrasta para profundezas de prazeres inigualáveis.
O caos salta aos olhos, invisível. O caos salta dos olhos em forma de líquido.
O caos come a raposa e vomita pedra. A pedra do caminho de Drummond. A pedra é a filha da bile do caos. Do caos. 

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Leve pousa

Meus desejos são como amêndoas macias: incomodam nas bocas daqueles acostumados à pungência tradicional dos alternativos em alta.
Por fim, precipito cada detalhe dos sonhos asquerosos e me jogo do topo ao topo. Inverto o precipício e caio no princípio da bilateralidade.
Volto a caminhar por ruas de lamparinas, flanando até ouvir o eco nostálgico do seu canto de marinheiro. Marinheiro que vem e que vai.
Meu feitio é sereno, mas meu abrigo é aflito, feito galinha d'angola. Empresto meu sorriso a estranhos na rua, escondendo meu desprezo. Com você, o oposto. Encarno o blasé enquanto meu coração assiste Os Três Patetas.
Minha amêndoa é macia demais para a sua boca. Onde está a rigidez da minha amêndoa? Onde está?
Ó, marinheiro, leve contigo o fruto que se fez podre de tão maduro, dentro de mim.
Leve tudo, e me deixe leve.
Leve tudo, mas também me leve.
Leve tudo, me leve, me eleve.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Você me inspira a acordar toques de veludo espinhento, escondidos dentro dos meus desejos.
Você se machuca enquanto eu observo cheia de sadismo e uivo por você. Há algo de errado nisso e eu sei. Mas não posso conter algo tão meu. Tão meu quanto seu.
E a você tudo isso pertence, da mesma forma como uma carta pertence ao seu leitor.
Mas a quem pertence a fruta mordida? Ao dente ou à cárie?

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Praga

Praga que não pega, não peca e não prega.
Praga que passa em pratos podres, passados em pedra e pranto.
Praga que empaca, que não emplaca a estaca na porta apagada.
Praga que é emplasto de infarto forjado.
Praga emprestada de poeta desvairado, que padece em prontidão perante palavras de um prisioneiro qualquer.
Praga de pagador de promessa, que deve palácios e entrega palhetas.
Praga improvável, que faz palpitar pálpebras paranoicas de trapezistas de circo.
Praga que não roga, que não prova e nem aprova.
Praga que perambula nos pântanos do meu coração.
Praga, paixão.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Na verdade não existe nada

Você não me quer, eu sei.
Mas sei como se sabe que o sol é quente. Um sabido certo, mas intuitivo.
Sei como sei, mas quero colocar a mão antes de ter certeza da queimadura.
Sei que meu nome não percorre momentos no seu dia tanto quanto o seu nome invade o meu quotidiano e parece amaldiçoar coisas simples que faço. Coisas que não sei se me lembram você, simplesmente, ou se faço apenas com a intenção de te trazer à minha tona.
Qualquer sinal da sua presença já acalma meus palpites sedentos de contato. Ainda que sejam sinais visíveis apenas para os meus olhos de serpente amarela.
Meus olhos enxergam mais cores que os seus e deve ser por isso que tudo em mim já está criado. Colorido.
Tudo em mim já existe, e em você não existe nada.
E não é o nada intratextual do além do nada ou do tudo a mais que o tudo.
É só o nada. E mais nada.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Noite densa que termina

A noite densa, tensa, intensa, que nunca mais se calou perante os olhos furiosos daquele que a observara sedento de carne e faminto de pus. Faminto de pulso. Faminto de impulso.
Expulso de Valhala, temia nunca mais regressar e passou a contar mares e mastros até chegar onde o fruto proibido não é mais gostoso por não ser pecado. Não era pecado. Mas o resto era.
O resto era, o resto que erra, o resto que teme a certeza da razão e se esconde em colinas de gramas macias de casas que abrigam gente pequenina.
Eles não vão mais voltar, a lua observa. Observa e conserva seu rosto voltado para a conversa dos homens bons de cor e ação.
A noite densa termina e ninguém se lembra de esquecer a penumbra do chá, que já está frio.
Ninguém bebeu, e os lábios trêmulos buscavam erva mais verde e mais líquido e mais sangue e mais colinas de gramas macias de casas que abrigam gente pequenina na noite densa que termina.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Mais fundo

Eu queria olhar nos seus olhos e contar reflexos, mais fundo, mais fundo.

Eu queria te encontrar um dia desses e assistir você ensaiar um discurso qualquer para uma pessoa que eu desejaria que fosse eu. Mais fundo, mais fundo.

Eu queria levar você para um outro lugar, para dentro de mim. Mais fundo, mais fundo.

Eu queria te dizer como eu realmente te vejo e contar coisas que você nem sonha imaginar. Mais fundo, mais fundo.

Eu queria flanar com você por caminhos que só você conhece, deixando você me mostrar o que há de bom nesse mundo insosso. Mais fundo, mais fundo.

Eu queria contar copos e sedas enquanto um filme qualquer passeia pela tela e nos leva para mais fundo, mais fundo.

Eu queria brincar dedos pelo seu pescoço e sentir sua pele protestar em silêncio. Mais fundo, mais fundo.

Eu queria mergulhar em você. Mais fundo, mais fundo.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Back to Barcelona

Vicky Cristina Barcelona - Uma cidade preguiçosa, três mulheres que se parecem mais do que pensam e um pivô central que transforma a luxúria em algo natural e inocente.

Muitos dizem que Woody Allen não possui mais o fulgor nova-iorquino do seu começo de carreira, mas parece que o fulgor nova-iorquino não consegue sair dele, mesmo alguns oceanos distante de sua terra natal. Por outro lado, seu humor que sempre se achegou a lados europeus, parece encontrar terreno seguro na simpática Espanha cultural.

O filme, que durante todo o tempo é contextualizado por um narrador em off, começa com uma breve apresentação de duas amigas, Vicky e Cristina, chegando à cidade de Barcelona para uma breve temporada de férias. No começo, é visível que o objetivo é ressaltar uma espécie de maniqueísmo entre duas pessoas que carregam, cada uma, um conceito diferente de bem e mal.

Vicky, interpretada pela excelente Rebecca Hall, é o modelo de pessoa sensata, fiel, equilibrada e ligada a valores tradicionais. Cristina, por outro lado, é o exato oposto disso. Ao longo do filme, temos a constante sensação de que Vicky inveja Cristina e que Cristina também inveja Cristina. Explicando melhor, Cristina inveja a sua própria imagem que ela faz questão de construir, mas que nem sempre consegue manter.

Observando as características principais de Cristina, é muito fácil entender o motivo de Scarlett Johansson ter sido escalada para o papel. Além de ser a atual queridinha de Woody Allen, posto anteriormente ocupado por Diane Keaton e Mia Farrow, Scarlett possui uma sensualidade e inocência lânguida que parece conduzir todas as suas personagens. Sendo um ponto positivo ou uma limitação, a personagem parece ter sido feita a tais moldes e não poderia ser interpretada de forma melhor, ou mais coerente.

Durante a viagem, as duas jovens caem nos encantos de um homem que é a própria representação da cidade de Barcelona (ou pelo menos da Barcelona de cartão postal, que é a retratada por Woody Allen). Javier Bardem interpreta Juan Antonio, um artista sedutor que consegue abocanhar não uma, mas as duas jovens de comportamento tão dicotômico. Através de Juan Antonio, uma nova personagem entra em cena para perturbar tudo que estava sendo formulado na cabeça do espectador mais desavisado. María Elena, personagem da estonteante Penelope Cruz, praticamente rouba todas as cenas das quais participa.

María Elena é insana e sexy. Consegue seduzir não apenas seu antigo noivo com o qual vivera um dos maiores exemplos de amor e ódio da história do cinema, mas também Cristina, além dos expectadores perplexos com a bela loucura da personagem interpretada por Penelope Cruz. Penelope consegue ser tão competente que Scarlett se torna insossa perto dela, fazendo até mesmo aqueles que antes se simpatizavam com a loira, a acharem enfadonha e sem graça ao desenrolar da trama.

Vicky some de cena enquanto o triângulo amoroso vivido entre Cristina, Maria Elena e Juan Antônio se desenvolve, o que nos faz questionar o real sentido do título do filme. No final do filme, porém, Vicky retorna para desabafar o espectador que está confuso com tudo aquilo e perplexo com a situação utópica que os outros personagens vivem (a plenitude do sexo, da arte e do dolce far niente). Realmente ela parece ser a única representante do pensamento ocidental ligado às questões de trabalho, responsabilidade e comprometimento. Em uma discussão onde ela tenta entender o mundinho onde a tríade vive, ela leva um tiro de uma ciumenta Maria Elena e decide, finalmente, que ela não é capaz de compreender e muito menos de fazer parte daquilo tudo.

No final das contas, o filme roda em várias situações e parece rumar os personagens ao grande desfecho que nada mais é do que a união das pontas de partida e chegada. A comédia improvável, inusitada e apaixonante de Woody Allen leva o espectador a uma bela viagem, visitando Gaudí e presenciando pitadas insólitas e quase subliminares de Pablo Neruda e Jackson Pollock. Apesar da arte em evidência, a condução dos fatos nos traz de volta à realidade. Como se estivéssemos realmente saindo da incrível Barcelona e nos reconhecendo em nossa atualidade tão pouco surpreendente e interessante.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Dissidentes

Pílulas e livros, enclausurados em propostas inaceitáveis.
Canetas amarelas colorem o cabelo dela e me chamo Envy desde então. 
Ela tem aquele olhar (Scarlett O'Hara), mas é meio psicótica. Não tem problema, eu a invejo mesmo assim.
Te observei de longe e percebi que o caminho era longo e tempestuoso, mas os Beatles já cantaram sobre isso, então não deve ser assim tão difícil.
Pedais de bicicleta não fazem som, mas me levam pro lado de lá, onde as caras são mais bonitas e posso escolher meu próximo amorzinho.
Sem primeiras chances, só passo de segunda ou de terceira. Sangue e mel e complexo de Estocolmo.
Me prenda e me espanque, assim eu não te deixarei.
Ela te deixará, mas eu não te deixarei.
Tem poeirinha nas minhas mãos e minha garganta é seca. Mas minhas entranhas são úmidas de pântano, de pânico.
Por favor, me mostre como chegar lá. Os outros podem passar, mas eu vou indo pelas beiradas, pela margem, pela favela.
Vale tudo para chegar até o seu vale. Cálice.
O shamisen sorri e diz: "hajimemashite". Eu apenas olho e sorrio com a ponta do nariz. Fungando,  farejando, caçando seu som.
Olha só, as cenouras estão tortas e o passarinho não consegue cantar. Eu gosto de parques de diversão.
Eu não estou louca, estou apenas de boa. Toque sua guitarra e vamos ficar em silêncio.
Você sabe que eu prefiro o baixo, mas estou alta demais.
Sei que você tá sozinho, mas talvez você não queira estar depois de ver aquele rabisco na sua agenda.
A maçã só tem lixo dentro dela, mas continua oca e podre e transparente e linda.
Eu não queria ir embora, mas tenho que trabalhar e você tem que começar a me amar logo. Então eu vou embora.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Nós éramos dois atores

Às vezes, bons. Às vezes, ruins. Nós éramos dois atores não influenciados pelas críticas.
Nós nos enrolávamos nas coxias, que atuavam como lençóis. Nós nos perdíamos no roteiro, que atuava como diálogo. Interpretávamos o mesmo texto, mas estávamos em palcos diferentes.
Nós éramos dois atores. Mal dirigidos, mal orientados. Tentamos improvisar, mas nossas falas não se completavam, nossos ritmos não se estabilizavam.
Éramos dois atores que tentavam conquistar a platéia que nada mais era que uma idealização de nós mesmos. Tentávamos nos conquistar, atuando cada vez mais efusivamente, energicamente. Mas estávamos atuando, somente. Infelizmente.
Cada fala parecia parte de um roteiro bem elaborado, onde tudo deveria se encaixar perfeitamente. Mas o que nós não sabíamos, é que éramos palhaços. E tudo não passava de um espetáculo barato.
Nós éramos dois atores. E a peça acabou.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Passa e volta

Dizem que sou muito forte, mas tenho momentos de chorar assistindo comédia romântica. Dizem que sou muito fria, mas ainda fico pensando se alguém gostaria de ter filhos comigo. Dizem que sou apática, mas sinto falta de alguém que me implique e me faça raiva e me faça sorrir em seguida e me diga “eu te amo” e me faça carinho nas costas e me pergunte se meu pai é muito bravo e vá visitar minha avó comigo e reclame das exigências da minha mãe e me cobre um pouco mais de sentimentalismo e me dê uma flor em um dia inesperado e me mande mensagens fofas durante o dia e me ligue só para ouvir minha voz e me queira mais que qualquer outra mulher e que olhe outras mulheres na rua, mas que pare depois de levar um beliscão no braço e que me espere quando eu demorar muito para arrumar e que me segure quando minha pressão cair e que limpe meu rosto quando eu desabar meus problemas de família e que conheça minhas amigas e sinta vergonha delas no começo, mas que depois saiba o nome de todas elas e me faça elogios sinceros e me faça elogios não sinceros também e implore para eu ficar quando eu precisar ir embora e insista um pouco mais quando eu fizer charminho e saiba o momento onde o silêncio é a única coisa que quero curtir e fique deitado comigo vendo filme quando eu tiver cólica e me queira de qualquer forma. Dizem que sou inconstante e efêmera, mas isso tudo passa. Aliás, acho que já passou. Aliás, acho que já voltou.

sábado, 24 de setembro de 2011

Limpa

Limpa. Limpa de corpo e alma. Limpa de tudo. Estou nula.
De volta ao estado centígrado de temperatura ambiente. Estou pecilotérmica, exotérmica. Vou indo com o redor e meu sangue não pulsa mais por algo que está dentro dele. Estou meio anfíbia.
É interessante perceber, em um estalo, que já não existem lembranças que sustentem um mundo homeotérmico. Já não me lembro mais do seu rosto, da sua voz. A memória parece longe, parece dançar na alvorada de bem distante. Sem copihues de Neruda, sem copihues.
Não sinto raiva, não sinto esperança, não sinto nada. Apenas me lembro que um dia senti. Pois a memória é mais forte que o esquecimento, e a palavra permanece - diferente de seu significado. Portanto respeito tudo que pensei, embora a passagem seja superior à permanência quando não existem mais estímulos. E sem estímulos que me habilitem, vou voltando ao estado zero. E por mais que oceanos pacíficos não me agradem, é preciso – nessa vida em ondas – passar por ele para se chegar a águas mais profundas. Águas de talassociclo. Águas que turbilhonam. Águas que me interessam.

domingo, 11 de setembro de 2011

Carnavalesco (03/2011)

Sentada há mais de uma hora no chão de madeira, cujo barulho estridente tanto me provocou sensações nesses últimos dias.
Um Woody Allen perfeito? Talvez sim. Teoricamente sim. Hipoteticamente sim. A profusão de luzes e cantos e cheiros deixaria qualquer outro Woody Allen ardente de inveja.
Mas a tensão nem sempre compensa. O crime nem sempre compensa.
Eu conheço meu lugar, e sei que não é este que me foi imposto. Meu legado é maior que um chão duro, um vôo perdido e um coração apertado.
Choro. O turbilhão de energia corre nervoso nas lágrimas de escape. Não sei mais o que fazer. Eu escreveria um bilhete simplório, mas cuja ironia salta aos olhos, sairia pela porta da frente sem ninguém notar, faria uma ligação e iria embora.
Mas o Woody Allen não seria Woody Allen se fosse tão arquitetado assim.
Não sei o que fazer (e se eu parar de escrever é porque houve uma necessidade súbita de me decidir)
Acho que vou ficar e esperar mais um pouco. Ainda tenho fé nas pessoas e talvez eu realmente deva parar de ter.
Mas eu prometo, a partir de hoje, me colocar no meu lugar. Parar com essa de deixar  o rumo correr.
Estou com medo agora. Alguma coisa não está bem e eu sinto isso.
Meu coração assume seu pico desde os últimos dias. Acho que já perdi o meu vôo e acho que já perdi minha paciência.
Mas sou tão cuzona que vou continuar aqui, esperando alguma coisa acontecer. E sempre deu certo. Só posso confiar que isso se mantenha, ainda mais agora quando o desespero me toca a boca.
As folhas da palmeira devem estar rindo de mim agora (essa foi a primeira frase que decidi escrever quando decidi que escrever seria a melhor distração)
Dei risada de tanta coisa que agora me parece tão fútil e insossa. Talvez os neuro-modificadores tenham me sustentado aqui. E eu nem sabia que podia lidar com eles de forma tão tranquila. Talvez eles tenham percebido a minha aflição e resolveram me ajudar. Acho que vou indo. Vou tentar.

(after all)

Só para falar que estou viva. E tudo deu mais ou menos certo, na parte bruta da coisa.
Ele é um dos homens mais estranhos que já conheci em toda a minha vida e sinto que tudo, o começo, o meio e o fim, foram uma coisa só e se resumiram àqueles momentos ali. Agora resta enfrentar os outros monstros e manter a calma para manter a postura.
Ele poderia ter me tomado de meu mundinho frívolo e sem graça e me levado ao mundo dele: excitante, superficial e amedrontador.
Ele saiu mais baixo que a encomenda e em alguns momentos nem o mínimo foi feito. O visceral foi posto em primeiro plano. Mas e os apêndices? Afinal, que sou eu além de puro apêndice? Eles me parecem apetitosos agora, como a colcha quente nas noites frias e o bolo de fubá nas tardes vazias.
E voltando ao tópico de fé nas pessoas, torno a me atestar estúpida ao dizer que aguardo uma consolação. Uma retaliação. Sei lá, um simples pedido de perdão.
Aqui não tenho ninguém com quem me deitar no leito noturno e nem no tapete riponga, mas me sinto mais acolhida. Aqui, ao menos minha consciência me acolhe, tornando tudo um pouquinho (ou muito) mais leve.
Que tal voltar a se divertir com os o-dores da paixão puramente platônica?
Sinceramente, estou começando a achar que o universo presta atenção demais ao que eu peço. Mas também ele me cobra isso depois em formas de pagamento subjetivo com juros na parcela. Sempre peço para pagar parcelado ao destino.
Nem sempre ele aceita, mas geralmente sim. Ele gosta de mim e eu sinto isso. O que me falta é o discernimento de até que ponto é recomendável retribuir esse amor e aceitá-lo em sua plenitude.
Não discutir com o destino é coisa de Paulo Leminski, eu preciso aprender a dizer “não” à concretização dos meus próprios desejos.
Estou indo para casa agora e você é a única testemunha de toda essa luta mental que travei até agora. E que daqui a pouco vai voltar.
Mas acho que essa que passou já foi, de longe, bem maior que a próxima.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Cabelos e culhões

Me olhei no espelho e peguei a tesoura. Aproximei-a de uma mecha previamente separada e, antes de executar o golpe final, deixei-a cair com estrépito no mármore do banheiro. Seria mármore? Não faço idéia. Me olhei no espelho e deixei a tesoura. Deixei-a por ali mesmo, onde caiu. Não tenho mais cabelo para cortar. Não posso me dar ao luxo de sair por aí cortando ao bel-prazer. Ou ao bel-sofrimento, como na verdade é. Nunca tive os cabelos tão curtos em toda a minha vida. Isso me desesperou tanto, tanto. Não posso me dar ao luxo de sofrer mais. Sofrimento que está inteiro na minha cabeça, inteiro, inteiro. Mas não posso mais. Não tenho mais cabelo para cortar. Não posso mais. Então eu choro. Choro de escorrer. Choro de derreter o delineador que deixou meu olho mais verde nessa noite. Não tenho mais cabelo para cortar. Para onde vai toda a aflição? Toda a agonia? Todo o desespero que causei a mim mesma por uma junção de fatos que já nem sei mais quais são. Os fios de cabelo repicados na pia e no chão do banheiro eram fossas eliminadoras de todo pensamento podre que ousava aparecer na minha cabeça. Ali eles surgiam e, dali, logo iam embora. Diretamente pelo fio condutor. Conduzindo-os diretamente para o ralo. Mandava todos para a puta que pariu. Junto com meu cabelo. Mas não tenho mais cabelo para cortar. 

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Um velho moderninho


Não quero mais anestesiar o meu êxtase, alimentar fábu-la-Fontaine de coisas que nem saíram da idealização.
Sou aquariana de ar e me conjugo só no futuro, ainda que haja um pretérito perfeito ou mais que.
Quero a pura e fina labuta dos apreciadores do ócio, e o nada me contenta como nunca antes o tudo o fez.
A vez das mariposas ainda não é essa, mas muitas já morreram afogadas em chamas azuis, talvez frias chamas, talvez quentes chamas. Quem te chama? Além de mim, e talvez a florista, que sem seiva, sem limbo, transporta o néctar para uma boca mais escarlate.

“Se va enredando, enredando. Como en el muro la hiedra. Y va brotando, brotando. Como el musguito en la piedra. Como el musguito en la piedra, ay si, si, si.”

segunda-feira, 29 de agosto de 2011


o carma está nas pombas
o carma está nos pampas
o carma está na pompa
o carma não é mais carma

a sina está no taco
a sina está no talo
a sina está no ralo
a sina não é mais sina

não quero mais saber
do destino que não é libertação

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

poeminha de 2007



(ando muito nostálgica ultimamente e acabei encontrando algumas coisas bem antigas. esse poema deve ser lá de 2007, eu acho. são apenas palavras que eu achava bonitas. todas juntas. e eu nem precisava explicar. mas senti vontade.)


Neura


Como uma libélula
No talassossiclo

O lince arquiteto fez
A resenha do relatório
Sobre o absinto entornado
Ao acalanto

A alegoria adjacente à auréola da pleura bruma
Que antes, bailarina
Na penumbra ou no candelabro

A glória do delírio da harpia
E a ambigüidade com o reflexo do ângulo
De uma visão de um felino
Ou de uma eqüidna com esquistossomose


sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Rocky Balboa fumante


_ Por que você fuma?

Perguntei para ele enquanto o observava apoiar aquele papel cilíndrico toscamente entre os lábios e riscava a caixinha de fósforos. Ele abriu os olhos e me olhou antes de fechar os olhos novamente para acender o cigarro.

_ Porque eu gosto.

A resposta não era satisfatória. Ele acendeu o cigarro, tragava pela primeira vez e soltava a fumacinha pelo nariz, de forma quase independente. O observei por alguns instantes e ele entendeu que deveria prosseguir com o raciocínio.

_ Me acostumei. Acho que o ar como ele é, sem as interferências da nicotina, não me satisfaz mais. Mudar de ar algumas vezes durante o dia pode ser algo interessante. Encher meu pulmão com uma substância estranha talvez faça meu organismo se preparar para qualquer interferência externa. Essa preparação me faz sentir como, sei lá, James Dean ou Rocky Balboa.

_ Rocky Balboa?

_ É.

_ Não fez sentido.

_ Eu sei, mas eu gosto dele.

Dei um risinho debochado e ergui as sobrancelhas, ainda esperando uma resposta satisfatória.

_ Eu não sei explicar. Senti meu rosto formigar e meu coração bater um pouco mais forte da primeira vez que dei um trago. Desde então, fumar me faz perceber meu corpo como corpo. Corpo que protesta ao receber um elemento satisfatório. É meio que um paradoxo, sabe?

_ Acho que sei.

Ele deu mais um trago e fixou seu olhar na ponta cinzenta e na luzinha alaranjada, que permanecia tímida e fixa, a luzinha alaranjada que possibilitava aquele momento.

_ Tipo... Não tem muito segredo. Tem coisas muito piores dentro de mim do que essas substâncias. Nicotina, alcatrão, e todas essas cosias que matam ratos e broxam um homem despreparado.

_ E você é um homem preparado, então?

_ Nem sempre. Mas sempre terei uma desculpa caso não esteja, no momento. É como usar o conhaque simplesmente para fazer qualquer coisa e depois ter o prazer de poder colocar a culpa naquilo, sabe?

_ Acho que sei.

Ele deu mais um trago e bateu as cinzas por trás da cadeira, apoiando em seguida os cotovelos na mesa para tentar explicar melhor, penso eu, aquilo que nem ele sabia exatamente do que estava falando.

_ Pessoas falam que o cigarro é um tempo que você dá a si mesmo para poder pensar em algo sem que as pessoas questionem o motivo de você estar tão concentrado em si mesmo. “Tô fumando”. Explico. E daí fica tudo bem. Isso é mais ou menos verdade.

_ Mas por que você fuma?

_ Fumo quanto tô satisfeito. Quando tô mal. Fumo antes de encorajar uma mulher a ser levada para a cama e fumo na cama depois que obtive o êxito. Se não obtive o êxito, também fumo. Fumo quando bebo, porque é assim. Fumo quando não bebo também porque nem sempre posso beber, sabe?

_ Acho que sei.

E ele continuou fumando. E eu o observava por trás daquela fumaça na qual ele, propositalmente ou não, se escondia. “Tudo bem”, pensei. Já estou mesmo acostumada com o gosto.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Fazer questão

Fazer questão de pessoas, ou mesmo de situações, é uma coisa que cega. Cega porque quem faz questão, questiona. Questiona se é recíproco, questiona se vale a pena. Questões como essas não são respondidas, são percebidas. E nem sempre se percebe a coisa da forma como deve ser percebida, independente de ser verdade ou não. Não vou discutir verdade. Mas a partir do momento em que a pessoa que faz questão começa a questionar esse ato, a coisa já tem um pé do lado errado da estrada.

Não que seja necessariamente ruim, mas dois pés que andam em estradas separadas acabarão por rasgar o corpo que os une, impreterivelmente. Portanto, é importante seguir por uma estrada só. Pelo menos durante um determinado tempo. Trocar de estradas, ainda que seja com uma frequência estúpida, não é tão ruim quanto tentar caminhar por duas ao mesmo tempo.

Sinto que estou sempre seguindo por uma Long and Winding Road. Que se apresenta como Stairway to Heaven e como Highway to Hell, dependendo do dia. Mas é a mesma estrada. A mesma longa e tortuosa estrada. Isso é porque eu questiono. Questiono porque faço questão das coisas erradas. Talvez eu devesse, talvez não. Talvez as coisas erradas não sejam erradas. Talvez a minha questão seja só questão de tempo e, em algum momento, vai passar. E vai passar.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Gosto de palavras limpas, mas prefiro as mais pungentes.

E que covardia é essa que quero tanto beber? É essa que escorre da sua boca como palavras sujas que tanto gosto de ouvir em alguns momentos? Palavras sujas são como o travesseiro que você vira pro outro lado para ficar geladinho no meio da noite. E eu não poderia encontrar definição melhor. Melhor mesmo é não definir nada, melhor mesmo é definhar. É defender. Defenestrar. Depravar despistadamente. Melhor mesmo é se deparar com o poder destituído de desenhos análogos a uma realidade que já não é mais. Melhor mesmo é comer no prato que cuspiu, porque é difícil aprender a gostar do próprio sabor. Mas melhor mesmo, melhor mesmo, é fazer um pacto com a arte, torná-la ato. Fazer da arte um fato. Um artefato.

Pungente. Difícil e pungente. Pungente como a patente do coronel que nunca foi coronel. Pungente como o sol que é poente e não é, ao mesmo tempo. Pungente como a pedra que mastigamos. A pedra que mastigamos ao afugentar o temor das palavras sujas. Pungentes. Difíceis e pungentes. As palavras sujas, difíceis e pungentes que fazem da arte, um artefato. Um artefato sujo, difícil e pungente.


P.S.: Posso não conhecer as portas e vielas do labirinto de alguém, mas gosto de entrar nas entranhas de estranhos e me entrosar com os vermes que lá encontro. Vermes são pequenos seres que comem livros e gostam de comer livros, de acordo com os poucos que sabem que uma Idéia Fixa é um ser vestido de branco que corre desembestado pelo palco, pulando em cima de pessoas e, por vezes, caindo junto com elas.



quinta-feira, 4 de agosto de 2011

E eu faço carinho

E eu deito na cama e eu vejo a cachorra e ela deita e eu faço carinho e eu me sinto amada e me lembro de como é me sentir amada e não sei direito em quem pensar e me pergunto se tudo que eu vivi foi real ou não e penso que não importa porque fiz tudo que tive vontade e não me arrependo e isso que vale e tudo vale na verdade e o importante é valer a pena e nem sempre tem pena e tenho pena de gente que pensa o contrário disso e tenho pena de gente que pensa o contrário de mim em muitas coisas e eu sei que isso é uma atitude ridícula e eu continuo pensando assim e eu tô ouvindo The Cure agora e eu não conheço quase nada da banda e eu até gosto e meus amigos gostam e eu deveria ouvir mais e eu só ouço as mesmas coisas e eu até gosto de ouvir coisas diferentes e eu sinceramente não sei o motivo de eu não fazer isso com mais freqüência e no final música é tudo que há de bom mesmo e às vezes sinto um efeito muito parecido com um entorpecente qualquer quando escuto música e eu gosto de entorpecente e eu gosto de música e eu gosto da minha cachorra e eu deito na cama e eu vejo a cachorra e ela deita e eu faço carinho e eu me sinto amada e me lembro de como é me sentir amada.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Cotton (1)


ele não me ligou mais. por isso eu queria que ele morresse com um tiro de escopeta na cabeça.
ele não falou mais comigo. por isso eu queria ver ele agonizar a morte dentro de um freezer lotado de carne fedorenta.
ele não me procurou. por isso eu queria ver dois anzóis presos na ponta de seu órgão genital.
ele não gosta de mim. por isso eu queria enrolar ele em filme de pvc e atirar ao mar.
ele não me ama. por isso eu queria seduzi-lo até ele me amar, mesmo que eu não queira amar ninguém


sábado, 25 de junho de 2011

Você sabe exatamente o que me dizer para eu quebrar as minhas próprias armaduras


Então você vem com aquele papo. Comentando alguma coisa que eu fiz como se você estivesse vigiando cada passo que eu dou. Você faz isso porque sabe que eu vou pensar que você está fissurado em mim. E sabe que se eu pensar que você está fissurado em mim, eu vou me interessar em te encontrar novamente. Porque o que mais pega em mim, é o meu ego. E nada melhor para você me conseguir que me fazer pensar que você vai alimentar o meu ego, como o homem fissurado em mim que você me fez crer que era.
Você sabe exatamente o que me dizer para eu quebrar as minhas próprias armaduras e eu sei exatamente o que eu deveria fazer para que elas permanecessem intactas. Infelizmente, eu também tenho uma certeza muito grande de que não posso lutar contra esse sistema, de que é completamente inútil saber o que fazer se eu não consigo colocar em prática. E já me convenci disso. De que não consigo colocar em prática aquilo que é necessário fazer.
Já me convenci de que essa é uma guerra perdida, de que eu não consigo permanecer em pé enquanto existirem soldadinhos dispostos a brincar. Ou brigar.
O grande problema disso tudo é que eu não consigo imaginar um fim para isso. Imagino nosso círculo vicioso perdurando até a eternidade. Poderei um dia me casar com alguém que obviamente não será você, ter filhos que obviamente não serão seus, mas continuar mantendo essa coisa estranha que eu só tive com essa pessoa que obviamente é você.
Sabe por quê? Porque você foi o primeiro para o qual eu perdi. E o que é um relacionamento se não uma guerra de egos? Um alimentando o outro e é isso mesmo. Infelizmente, para você eu perdi. Perdi e perdi feio. E por ter perdido de você, você ficou aí, nunca tendo me perdido. Você ganha de mim e nunca me perde. É assim que funciona, não é?
E você gosta. Você é feliz assim. Você gosta de perceber quando o desespero começa a brotar no meu olhar e é aí que você aproveita para tornar esse desespero real. Você dá um jeito de foder com toda a minha estupidez e ampliá-la ao extremo.
A verdade é que você não está nem aí e eu fico aqui, desabafando em uma página fria para conter o impulso e o desejo de simplesmente sair perguntando para você coisas que eu nem tenho o direito de perguntar.
E no final, acho que eu só começo tudo de novo com você com o simples desejo de terminar. Terminar de uma vez, terminar para sempre. Como se eu sempre estivesse pedindo uma revanche, e alimentasse a esperança de começar algo simplesmente para sair. Sair ganhando. Eu não quero sua boca, não quero seu corpo, nem quero o seu poder magnífico de me fazer pensar que você é incrível. Tudo que eu quero é uma revanche. Sempre foi isso que eu quis desde que perdi para você pela primeira vez. E desde então, isso é tudo que eu quero. Mais uma chance para ganhar de você, mesmo sabendo que as probabilidades estão indiscutivelmente do seu lado e eu não tenho chance alguma. Mas eu quero minha revanche. E vou eternamente querer, enquanto eu continuar perdendo.
E eu até gosto disso. Gosto de ter “unfinished business”. Gosto de alimentar meus assuntos pendentes, como se inconscientemente eu soubesse que nunca poderei morrer enquanto tiver esses tais assuntos pendentes. Como no Gasparzinho, sabe? E esses assuntos pendentes me mantêm viva, acesa, concreta, real e atual. Você é um “unfinished business” muito delicinha. E quero muito te manter. É claro, enquanto eu ainda achar que posso ganhar de você...


E agora que eu li de novo isso, ficou realmente parecendo que é para você, mas acredite, não é.
Mas se você quiser, pode ficar pensando que é. Não faz mal.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Fitzgerald (terceira parte)


Fitzgerald (terceira parte)

Ele havia pensado nela.
As noites com sua esposa já não eram satisfatórias, mas dessa vez foi. Ele havia pensado nela.
Esse espasmo de nostalgia veio poucos dias depois de a ver no restaurante. Podia não ser ela, mas ele tinha certeza de que sim, e isso era suficiente.
Mas ele não pensara na mulher do restaurante. Pensara na jovem prostituta de tempos atrás, que provavelmente nem existe mais, epistemologicamente falando.
Aquela do olhar Scarlett O’Hara. Aquela indecisa entre Billie Holliday e Etta James. Ou seria Fitzgerald? Não importa.
Ela balbuciava desafinada a letra de Love for Sale. Essa era a música, com certeza.
O perfume do pinheirinho de menta, o perfume genérico forte e provavelmente fora de validade em gotas nos pulsos e atrás dos lóbulos das orelhas dela. O cigarro barato que deixou sinais no estofado até bem depois daquela noite. E principalmente: aquele olhar, que exalava desprezo e inocência em um paradoxo profano. Ela tinha aquele olhar.
E bastou que ele a imaginasse ali, em um ato que foi pago mas ficou só na incredulidade, que a noite foi satisfatória. Como há muito tempo não era com a sua esposa.
As notas amassadas que ele jogou para ela antes de a ter expulsado do carro pagaram o eterno incômodo do “não-ter-sido” e agora ele havia percebido, na epifania de um gozo, que fora melhor não tê-la fodido naquela época.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Para um carinha de muito tempo atrás

And what matter is: when you wake up next morning, you’ll be all alone.
And I’ll be laughing, because even if I wake up alone, I’ll never be the complete asshole you are.
And you’ll always know that it’s all because of you. All your loneliness, all your emptiness, all your fucked-up state of mind. All your fault.
No one has ever dumped me off before and you should know it. Not because you are the greatest dick that I’ve ever had, but because you are the greatest dick that couldn’t recognize that I could be the best damn thing in your fucking life.
But I truly understand what’s going on with you, boy. You must’ve had a big frustration with a beloved bitch. And she fucked you up. Fucked you up really hard, baby. And now you walk around, kissing silly girls and making ‘em believe in everything you transpire. You transpire fascination, but it turns into desperation.
What comforts me is the fact that there was once a beloved bitch that fucked you up. And while you keep doing this shit, you still suffer because of her. You may not admit it, or you just may not realize it. But that’s exactly what happened. And you are nothing more than a terrible loser. And in that point, babe, I beat you. ‘Cause I lost you and I’m here, completely capable of loving again. And what about you, kiddo? You are nothing more than a terrible, terrible loser.




domingo, 29 de maio de 2011

un-humbling confession



Muitos admiram minha humildade. “É falsa!”, acabo de gritar aos contempladores.
Nada em mim é tão falso quanto minha humildade.
Sei o que posso fazer e sei muito bem que bem eu posso fazer qualquer coisa que posso.
Mas nunca admitirei. Ouviu? Nunca!
Posso morrer defendendo minha incapacidade e sempre estarei atenta aos que iniciarem qualquer devaneio a respeito de meus poderes, para então cortá-los com uma sinceridade bruta e não tão sincera assim.
O destino é meu amigo e o acaso é meu amante. Os dois me presenteiam a todo tempo com banquetes de guloseimas que sustentam minha casa. A sorte é meu maior triunfo e me jogar em cima dela, meu ato de maior qualidade.
Confio no meu amigo e no meu amante. Mais do que em qualquer pessoa.
Coisas inacreditáveis aconteceram comigo e é delas que sou feita. Sou feita de memórias.
Mas mais ainda sou feita de uma certeza muito certa de que eu ainda posso esperar muito mais. “Tragam o inesperado, estarei sempre pronta para ele!”, admito aos leitores.
Sou capaz de bem mais do que você pensa. Me refiro a coisas maravilhosas, mas a coisas bem ruins. Baixas mesmo.
Fingir humildade não é coisa fácil. Você tem que escolher um ou dois ali no seu grupo social e contar alguma vantagem a eles. Para eles se sentirem próximos e sentirem que sua sinceridade é exclusiva a eles. Porque eles sabem que você pode, e admitir que você também sabe (apenas um pouco, nunca tudo!) mostra a eles que você também compartilha da opinião geral.
É importante permitir lapsos de “eu sei no que sou boa”. Humaniza a situação e passa o conceito de que sua humildade é legítima.
Você pode também escrever um texto estranho no seu blog, que começa falando de uma coisa, toma um rumo desconexo e depois volta para o primeiro assunto, admitindo tudo aquilo que você realmente pensa. Vocês podem pensar que essa é uma estratégia falha, mas ela é a mais ardilosa de todas.
Ter um eu-lírico é comum a todos. Esconder nele seus verdadeiros pensamentos é artimanha para poucos.

sábado, 14 de maio de 2011

Grande escrito do mês de abril


E eu tento. Só deus sabe como eu tento. Mas deus sabe minha aflição em não saber se faço certo em tanto tentar.
Se me afasto, temo que minha ausência seja agradável. Se me aproximo, temo que minha presença seja óbvia. E eu não gosto de ser óbvia. A obviedade para mim não presta, porque não sei fazê-la de modo correto. Se eu soubesse como agir com obviedade de uma forma mais pura do que me permito, talvez ela me agradasse. Não sei ser óbvia e ponto final.

-censurado-

Nunca me foi dada uma esperança mais que ilusória. Nunca. Nada. Mas ainda assim eu estou aqui. Justificando (ou tentando justificar) um sentimento fundado em sabe-se-lá-o-quê. E é isso.

-censurado-

Parei de beber quando quis, parei de fumar quando quis, mas ainda não parei de você, embora eu ainda não saiba se eu realmente quero. Mas eu quero. E quero querer.

-censurado-

Nunca me senti tão real e fiel ao adrianar: “A verdade é o desejo”. E é.

-censurado-

O que me conforta é saber que eu poderia estar mais bonita que ela. Mais solícita, mais empolgada, mais inteligente e mais feliz até. Eu poderia era estar no lugar dela, mas não estou. E isso a faz infinitamente melhor do que eu. Porque ela está com ele. E eu a invejo.

-censurado-

Há momentos na vida em que as pessoas decidem atirar para o alto o pudor da fala e o medo de decisões. Tudo isso poderia resultar em uma tragédia caso eu já não estivesse decidida a abandonar o sentimento mais paradoxalmente platônico que já tive.
Ele me alimenta de forma subjetiva e satisfatória, mas enche meu barril de ilusões com as quais tenho tido dificuldade de lidar.
O mais interessante é que tenho uma certeza muito absoluta de que é o correto a se fazer, embora saiba que não será tão agradável quanto deveria.
É como abandonar um vício. Necessário, porém não deixa de ser um porre. Feito criança mimada fico pensando que fazer esse charminho vai ter o efeito pretendido, mas no fundo sei que é só charminho por charminho e tenho a esperança de que quando eu perceber que essa tática não funcionou, eu caia fora.
Ele não te quer. E se em algum momento ele te quis, ele tem motivos mais que suficientes para não deixar esse desejo sair do campo das idéias. Deal with it.
Se eu me engano agora é porque sei que isso pode ser bom no futuro. Atiro no próprio pé, querendo acertar o chão, mas sabendo que o tiro vai me impedir de dar o passo que me faria cair do precipício.

-censurado-

Apesar disso, ainda tenho a sensação de que meu dia vale mais quando eu te encontro. Seja para notar sua presença, seja para fazer com que a minha seja notada.

-censurado-

Até acho que é nisso que você mais me faz bem. Posso não ter um homem efetivo em minha vida, mas ter alguém pelo qual eu me esforce para ser atraente e interessante me ajuda a sê-lo.

-censurado-

Li que algum filósofo aí dizia que as coisas só existem a partir do momento em que são percebidas e na hora pensei que sua existência estivesse talvez ficando um pouquinho blur para mim.

-censurado-

Me sinto mais leve, mais consciente de mim mesma e mais apta a agir com temperança. Eu acho que nem gosto tanto da temperança, mas o ciclo tem dois ápices e não para de rodar. Logo, para chegar ao mar em fúria, o tempo de calmaria é inevitável e é disso que preciso agora.

-censurado-

A carne é fraca e a mente é fértil. A confiança oscila entre o derrotado e o invencível e trava no meio do caminho. E eu não faço nada.

-censurado-

Mas não é! Ela não é. E sinto isso de forma latente e dolorosa sempre que caio dos meus devaneios baseados em invenções e delírios particulares.


terça-feira, 10 de maio de 2011

pára tudo, sou nada.

para os nerds, sou noob. para os noobies, sou nerd.


para os hippies, sou careta. para os caretas, sou hippie.


para os largados, sou antenada. para os antenados, sou largada.


para os amantes, sou só poeta. para os poetas, sou só amante.


para mim, sou feita deles. para eles, sou apenas eu.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Eu tenho a plena noção de que meu último texto ficou bastante incompreensível, mas não consigo pensar em uma coesão melhor para organizar idéias tão desorganizadas.

Sobre pontos e linhas e o sentido da vida

Minha vida não é uma linha contínua. Minha vida, aquela que realmente importa, nada mais é que um conjunto de pontos aleatórios distribuídos pelo meu tempo e espaço.
Cada um desses pontos representa um daqueles momentos que, se você acompanha o que escrevo, costumo chamar de: Dias Woody Allen. Se você não acompanha o que eu escrevo, acredito que o nome seja auto-explicativo.
Acontece que, existem algumas fases na minha vida, que esses momentos ficam muito distantes entre um e outro, e nesse abismo em caos que é o espaço entre esses dois tempos específicos, eu me perco.
Eu me perco e começo a simplesmente parar naquele vazio e simplesmente esperar pelo próximo. Graças a alguma força, o próximo nunca costuma demorar muito. Sei lá o que eu fiz pro destino para ele ser tão simpático comigo, só sei que ele é.
De qualquer forma, o fato de atribuir a razão da minha vida a esses momentos tem me feito questionar a perenidade da minha satisfação própria.
Me tornei dependente do inacreditável. Minha vida não faz sentido algum se não for muito mais que a maioria das vidas tradicionais. Muito mais.
E não é desprezando a vida dos outros, é só supervalorizando a minha, mesmo. E eu até acho que estou em meu direito ao fazer isso, porque convenhamos, posso não ser a rainha do improvável, mas muita coisa já aconteceu na minha vida, no meu mundinho, no meu limitado campo de ação, que deixaria qualquer um que soubesse de tudo isso, no mínimo, levemente interessado.
Mas eu quero mais. It’s got me addicted, you know…
Eu preciso da incredulidade alheia. E mesmo que o alheio seja apenas eu, perdida em meus pensamentos, preciso de um pilar quando nada mais me sustentar. Como se eu sempre pudesse me apoiar em certos momentos e pensar o quanto isso tudo aqui valeu a pena, sabe?
E são esses momentos. Esses pontos aleatórios distribuídos pelo meu tempo e espaço. A minha linha contínua da vida? Essa não importa. Porque uma linha não se sustenta quando é cortada, mas os pontos são auto-suficientes. Os pontos permanecem. Os pontos são únicos, infinitos, intocáveis. Pontuar é preciso, alinhar não é preciso.



sábado, 19 de março de 2011

Noite de sábado


E quando palavras que nunca serão lidas pelo receptor pretendido são a única coisa que resta para uma noite de sábado?
Nunca se sabe o quanto lembranças simples podem te atar a uma realidade que você desejaria que fosse sua. 
Você desejaria tanto que fosse sua que se perde em roteiros bem elaborados de possibilidades incertas em encontros casuais. Falas, cenas, olhares, figurino, trilha sonora. Tudo planejado para um momento que jamais acontecerá.

E quando esse devaneio é a única coisa que resta para uma noite de sábado?
Nunca se sabe realmente se isso é mais impossível que improvável. 
Você desejaria tanto que fosse apenas a primeira opção que o "difícil" já soa agradável a ouvidos acostumados ao "inadmissível". Tantas barreiras que não se pode mais contar. Tudo planejado para estragar qualquer possibilidade de um "talvez".

E quando o "talvez" é a única coisa que resta para uma noite de sábado?
Nunca se sabe exatamente o que pode acontecer e a esperança dessa incerteza traz de volta o looping que alimenta o amor platônico. 
Esperança e desesperança. 
Eu te espero. Eu me desespero.

E quando o desespero é a única coisa que resta para uma noite de sábado?



segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Te chamo de erro


Pode até ser um erro meu.
Mas foi o que eu disse há um tempo atrás, por aqui mesmo: "se eu te chamar de erro, poderá ser o melhor elogio que você ouvirá de mim em toda a sua vida".
E eu tenho um talento tão grande para pressentir (e por que não, desejar) os erros, que realmente creio que cada um deles irá se concretizar exatamente da forma como temo (e por que não, desejo).
E assim como a pequena Chiyo salvou em seu peito o lenço com o ideograma da Iwamura, e destinou cada passo de sua formação em gueixa, eu destino cada ação mesquinha e quotidiana a esse único e mais recente (talvez nem tanto) erro ao qual me disponho.
E me disponho sim, caso exista essa dúvida em seus pensamentos. 
Audaciosa, um dia pretendo, quando já Sayuri, saber que cada passo foi dado em cima da corda, que a cor de cada quimono foi escolhida corretamente, que as palavras sutis e bem selecionadas, por vezes dirigidas a outrem, foram ouvidas pelo verdadeiro destinatário, compreendidas e admiradas.
Pode até ser um erro meu.
Mas é o erro que mais quero cometer atualmente. Traduzo os meus sonhos eliminando conceitos junguianos, eliminando conceitos freudianos, eliminando qualquer conceito alheio à verdade óbvia que salta aos olhos com brilho e contraste aumentado. Eu quero.
Erra junto comigo.
Viaja no meu erro, tira o singular do pronome e esquece um pouco as convenções. 
Não é exagero, é insanidade. Não é loucura, é apenas desejo. Mentira, não é nada disso. É apenas um erro. 
O erro, em conceitos jurídicos, é um vício no processo de formação da vontade, em forma de noção falsa ou imperfeita sobre alguma coisa ou alguma pessoa. O meu erro é notificar perfeitos os detalhes cujas mancadas me escapam. É um vício no processo de cogitar, cogitar, cogitar. E vontade, muita vontade.
O erro no direito ainda subdivide-se em erro substancial ou essencial e erro acidental. 
A essência do meu erro é a minha imortal loucura de buscar aquilo que está mais longe, de buscar aquilo que nem em sonhos consigo ter plenamente. Nem em delírios, nem em exercícios de faculdades mentais completas ou não, complexas ou não, repletas ou não de agouros externos que invadem qualquer desejo ímpio de me pegar, por alguns segundinhos, errando em pensamento. Errando em pensamento com você.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Coisa demais da conta

Ela sentava-se ao bar como se nada a impedisse de se imaginar uma mulher qualquer, não tão qualquer assim se pensar em formas comuns da figuração da palavra.
O que impede uma aspirante a atriz de aspirar qualquer forma de vida semi-humana ainda que distante da frívola realidade à qual estava acostumada ultimamente?
Ninguém ali precisava saber que ela era uma fracassada.
O que era o fracasso para quem está fora das coxias? O que era o fracasso para quem, há muito tempo, não cegava a visão ao cruzar luz com holofotes enquanto tentava procurar com olhos aflitos as pessoas mais ou menos importantes que poderiam estar por ali, aguardando o momento em que a mais ou menos íntima entraria em cena para mais ou menos atuar?
Ela sentava-se ao bar.
Pediria uma dose do barato St. Remy, que era doce demais ao paladar e enjoativo demais ao estômago ou inovaria com uma dose de Campari, coisa que sempre prometeu a si mesma prova um dia, mas nunca tinha “guts” suficientes?
_ Garçon! Uma Heineken, por favor.
Nada de Campari ou St. Remy. Seria o de sempre. Uma cerveja de classe acima à que pertencia e um cigarro barato que só tinha fama de ser caro.
O cigarro ficou para a próxima e a cerveja ficou para o tempo de boa vontade do garçon. Poderia durar uma eternidade ou... simplesmente uma eternidade menor.
Ela levantava-se do bar.
Uma eternidade era muita coisa. Mal podia esperar para fracassar novamente.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

So vast is the sky

Eu tento me entender e me explicar para aqueles aos quais eu devo explicação.
E em cada porta de casinha no meio do quarteirão eu me deparo com gente e mais gente. Tanta gente. Tanta gente que merece satisfação sobre o que faço, o que penso e o que desejo.
Mas eu não sei dizer que quero. Independente do que eu queira.
E eu quero tanta coisa, tanta coisa. Quero você. Quero você também. Quero você. E quero você.
E quero eu.
Mas ou eu quero eu ou eu quero você. E eu quero tudo. E eu não quero nada.
Já não consigo mais colocar prioridade nas coisas na minha vida. Tudo é prioridade. Mas nada é tão importante assim, no final das contas.
É paradoxo demais, meu en-raio-vecido zeus. É paradoxo demais.
Cadê o canto de choro? Cadê o desafinado desatino destinado a destilar coisas sobre eu e coisas sobre você?
So vast is the sky. “Contando as histórias que são de ninguém. Mas que são minhas e de você também.”
Não é de você que estou falando! Nem de você. E muito menos de você.
Mas alguém me inspira. E é disso que eu preciso. De uma ferida para me empurrar uma caneta.
And I fall, fall, fall. Sempre. Cansada de fallar, começo a falar.
Será que estou falando daquilo novamente?
Eu não quero só falar daquilo. Quero falar de coisas pelas quais não fallo.
Quero falar de pseudo-quedas. E só para eles.
Falar para-quedas não é de meu agrado.
Quedas de verdade não merecem minhas palavras.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

continua.



The Closure (?)
                                                             and The Closure II (?)



Tudo que  começa, um dia termina. Tudo que termina nem sempre teve um começo, porém.
De qualquer forma, tantas vezes eu já prometi. Tantas vezes eu já menti. Tantas vezes eu realmente acreditei, e me fodi, no final.
Mas nem sempre que a gente se fode, a gente se fode.
No final, o importante de verdade é tudo ser parte de um Woody Allen escabroso. Ou fluido. É... Pode também ser fluido como a água.
Mas se tudo que é fluido, flui, acaba não fazendo muito sentido. As coisas são bem menos apoteóticas do que se pensa. É essa a questão! Sempre se pensa. Tudo acontece por pensamentos premeditados. Um dia você é coisa pensante, um dia você é coisa pensada. É a única diferença. E quando você é coisa pensada, começa a achar que é coisa divina. E é justamente o contrário. Quanto mais você é coisa pensada, menos divino se torna tudo aquilo. O divino é ver cada peça do dominó cair perfeitamente na próxima, que cai na próxima, que cai na próxima, que cai na próxima, que cai na próxima e se torna uma figura. O planejamento é divino, o acaso é banal.
E coisas banais são interessantes até certo ponto. Depois disso, tornam-se tão presumíveis quanto as planejadas. E entre planejar algo ao seu gosto e planejar algo ao gosto alheio, vamos combinar que a primeira opção é bem mais atraente.
Quem é que não gosta de escrever um roteiro e ver que tudo ali funcionou perfeitamente? Mas o roteiro só tem graça quando só você sabe o que tá escrito nele. Só você. Quando o roteiro é compartilhado, é roteiro adaptado. É roteiro influenciado. É roteiro falsificado. Quando você compartilha o roteiro, ele não existe mais.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

data

Ultimamente o silêncio tem me agradado tanto que até a música boa meus ouvidos rejeitam.
Gente que fala demais, grita demais, grunhe demais. É que vejo porcos no lugar de pessoas, as vezes.
E tudo me cansa como se eu estivesse em uma maratona. Não gosto de correr.
Acho que nada paga o esforço. Nada paga qualquer pé pós pé em velocidade exagerada o suficiente para sair da qualidade de flanar.
Também não quero mais falar. Falar me cansa. Porque fico ouvindo a minha voz. E ouço duas vezes a minha voz. E ela me irrita. Fora o que falo. O que falo me irrita muito.
Eu posso ficar só pensando. Seria legal se comunicar por pensamento. Não precisa abrir a boca ou movimentar a mandíbula.
Não me entenda mal. Ou entenda. Voce é quem sabe, no final das contas.
Mas esse negócio de lutar por causas não é mais pra mim. A preguiça se torna egoísmo que se torna repulsa que se torna compaixão que se torna egoísmo que se torna preguiça.
Rodar é legal. Bem macabéico mesmo. Como gostar de parafuso e prego, sabe?
Mas eu não gosto de parafuso e prego. Gosto de outras coisas.

domingo, 15 de agosto de 2010

Still a lot of land to see -

"Oh it gets so lonely
When you're walking
And the streets are full of strangers
All the news of home you read
Just gives you the blues
Just gives you the blues"






sábado, 14 de agosto de 2010

por-te-eira

para cada folha que arde e queima
na brisa do vento suave
que trepita pirilampa pelo céu amarelo

para cada pedaço do bolo
com açúcar refinado salpicado por cima

para cada centímetro de pele
de cada centímetro de corpo
de cada centímetro de alma
de cada sentimento que cabe em palma

para cada e-mail não lido,
desafeto contido num lápis abandonado
que não faz mais nada

para cada passo na lua
(se é que existiram passos na lua)
e sonhador mirando a Terra

para cada ervilha, milho, lentilha
e outras comidinhas mais
que pequenas e discretas permeiam por aí

para cada grito abafado,
soluço engolido, lágrima cortada
em cada esquina esquecida
de uma vida embreagada

para cada palavra embutida
de pensamento extraviado
que encontra, no erro, a própria essência

para cada caso, um cado de coisa
e a permuta da permuta da permuta
que permite tudo, exceto
a parte que te pertence

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Padecer


E quem é que vai dizer que todo esse pensamento não é coerente com a minha mais íntima realidade? Que o sentimento, hora ímpio, hora profano, hora inocente, hora mundano, não deve ser levado a sério como algo verdadeiro?
E quem é que vai dizer que tudo isso não passa de uma bobagem transcrita das sombras-não-mais--que-sombras da caverna de um mito qualquer?
E por que desprezar as sombras?

De conselhos eu me basto, de palavras eu me canso.
De ações vazias e reles poesias eu entendo, mas não me rendo a um verso qualquer.
Portanto, me faça o favor.

Pastar em terrenos vastos, vastos. Sim, eu sei que isso eu nunca fiz.
E quem é que diz
que a grama do vizinho é mais verde?
Quem é que diz
se o muro é alto e impede a visão de qualquer coisa além do palmo de terra anterior ao próprio portão?

Não quero passar em barro,
madeira, papel ou qualquer tolice,
aquilo que nem sequer minhas mãos conseguem tocar essa noite.

Os astros nunca estão ao meu lado, cansei de ser incompatível com as situações.
Não digo pessoas porque pessoas são mais complexas que situações.
Situações são essas coisas aí, que aparecem para você sem contexto, sem aviso prévio, sem salário mínimo e sem férias prolongadas.
Pessoas já chegam com carga no baú e tudo mais. Escolhe uma personalidade e leva uma bagagem de coisas de brinde.
Brinde é coisa de recalcado, né? Mas é bem isso mesmo.
Brinde.

E essas águas de talassociclo? Dessa vez, travestidas de oceano pacífico.
(Olhos pacíficos, coração em fúria.)
Elas retornam numa ressaca imensa, avassaladora. Águas de meio de ano.

Sou susceptível a vícios. Mas consigo analisar cada um deles da forma mais fria possível.
Existem vícios frios? Não creio.
Mas se a verdade é o desejo, podemos considerar algo do tipo.
Um vício, dois, três, mais alguns. Não sei se tenho para completar duas mãos, mas tenho o suficiente para me baquar bonito.

E sim, é bem assim.


quinta-feira, 1 de julho de 2010

after midnight (28/07/2009)

preciso vomitar palavras.
dentre todos os pensamentos que me atingiam em proporções assustadoras, esse talvez tenha sido o único mais saudável, mais tangível, mais passível de ser proporcionado pela minha pessoa, apenas.
o que me fez levantar da cama e interromper o fluxo, unicamente para digitar palavras (ao som de um gato no cio), foi forte e a necessidade foi tamanha que sinto que se eu não escrever algumas palavras que contenham gotas de meu sentimento atual eu posso fazer algo que não me permito. essa frase ficou muito grande, foda-se. acho que tem algum tempo que não faço isso.
já me comuniquei com a que talvez entenda um pouco de minha aflição, e só o fiz pois precisava me comunicar. não foi suficiente para me satisfazer, portanto estou aqui.
a situação é trágica e cômica ao mesmo tempo. consigo ouvir o oscar filho gemendo na minha janela enquanto penso em quarenta e seis maneiras de torturar alguém.
mentira. mas é mentira mesmo, não digo isso só para que o leitor não tenha medo de mim. afinal, por que teria? posso te atingir com um "fronha esdrúxula"? não, mas as pessoas encontram maneiras bem intrigantes para me atingir.
o baque foi lindo, eu sei. e eu já disse que não suportava o pacífico calado, eu sei.
mas a calmaria me viciou de uma forma que a simples visão de uma nuvem incerta me faz pestanejar. vá lá! diga-se tudo. ou quase tudo.
quero o lado Cristina mas me esqueci que não tenho inteligência emocional suficiente para suportar tantos estímulos.
e o que eu amo na vida é aquela idealização que está muito longe daquilo que é real. talvez não seja o sentimento mais puro, mas é alguma coisa e eu não sei o que fazer com tanta carga. talvez seja demais para mim, talvez eu ainda não esteja preparada para vivenciar tudo aquilo que idealizo em uma plenitude muito mais que plena, a plenitude exata e medida, do tipo que só se encontra em Vienna.
Vienna espera por mim? sim, eu sei que sim.
mas nesse momento, mais do que nunca, sinto a necessidade palpitante de ir ao encontro de todas aquelas coisas que me foram negadas, em um legado que me deixou a vida inteira do outro lado. entre tantas caras, entre poucas coroas, talvez ser o outro lado da moeda não seja assim de todo ruim.

where's the fire? what's the hurry about? you better cool it off before you burn it out.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

diálogo de 100 100 Machado

se isso fizer algum sentido para você, me procure IMEDIATAMENTE.
teremos negócios a tratar...

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Bacamarte – como? O quadro de desequilíbrio mental não seria o desequilíbrio? Hum, sim, pode ser. De fato, realmente parece que aqueles que apresentam algum desequilíbrio possam ser os sãos. E os totalmente organizados em suas funções mentais... sim.

Machado – e como o senhor classificaria estes últimos?

Bacamarteem classes. Os loucos perfeitamente modestos, os tolerantes, os verídicos, os símplices, os leais, os magnânimos etc.

Machado – e como seriam tratados?

Bacamarte – bem, cada beleza moral ou mental seria atacada no ponto em que a perfeição parecesse mais sólida.

Machado – então, o senhor poderia acabar com toda loucura, não?

Bacamarte – plus ultra! ... plus ultra?

Machado – mas deveras estariam eles doidos?

Bacamarte – e foram curados por mim, ou o que pareceu cura não foi mais do que a descoberta do perfeito desequilíbrio do cérebro?